

O início de um novo ano costuma trazer a expectativa de mudanças rápidas, decisões firmes e recomeços claros. No entanto, nem toda mudança se dá no ritmo do calendário. Há momentos da vida que não pedem viradas, mas travessias.
Na perspectiva psicanalítica, a travessia diz respeito aos períodos em que o sujeito se vê diante de mudanças profundas: algo já não funciona como antes, mas o novo ainda não se organizou. Velhos modos de ser, amar ou se defender começam a falhar, e isso produz angústia – não porque algo esteja “errado”, mas porque há perda de referências.
Luto por ideais que não se cumpriram, por imagens de si que precisam ser abandonadas, por certezas que sustentavam a vida psíquica. Esse processo não é linear nem rápido. Ele exige tempo – não o tempo do relógio, mas o tempo psíquico, aquele que permite que algo seja elaborado.
Na clínica, esse momento aparece quando a pessoa já não se reconhece inteiramente em seus sintomas antigos, mas ainda não consegue nomear o que deseja. Há silêncio, confusão e, por vezes, um desejo de voltar atrás ou de apressar soluções. A psicanálise não propõe atalhos: sustentar a travessia é, muitas vezes, a condição para que algo novo possa surgir.
Trata-se também de um tempo ético. Atravessar é um ato: é não recuar diante do vazio, não se agarrar a respostas prontas, não tamponar a falta com promessas de completude.
O poema “Tempo de Travessia”, de Fernando Teixeira de Andrade, nos lembra que o caminho não se apresenta pronto:
“Há um tempo em que é preciso
Abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
Nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos”.
Ou seja, ele se constrói no próprio ato de caminhar. Do mesmo modo, na experiência analítica, não se trata de chegar a um lugar ideal, mas de sustentar o movimento, permitindo que novas formas de estar no mundo se tornem possíveis.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Nem sempre é tempo de chegar.
Às vezes, a travessia se impõe e algo se transforma.
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